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terça-feira, 14 de março de 2017

Souvenir, porque amar faz muito bem...





Souvenir é uma co-produção da Bélgica, Luxemburgo e França, de 2016. Estrelado por Isabelle Huppert e KevinAzaïs, e dirigido por Bavo Defume.
Imaginem um filme filme simples, com um roteiro bem amarrado e ótimas atuações, essa é a síntese de Souvenir.
Mais uma vez, Isabelle nos presenteia com seu talento, representando Liliane uma mulher madura, que trabalha em uma fábrica de tortas. Liliane vive uma vida melancólica regada a uísque e a repetição dos seus dias.
Um dia, começa a trabalhar na empresa um jovem de 22 anos chamado Jean. Liliane apesar de se sentir atraída instantaneamente por Jean, sustenta sua postura séria e indiferente.
Eis que, Liliane guarda um segredo. Ela tinha sido uma cantora famosa há 30 anos atrás e quase ganhou um Concurso Europeu de Música, no entanto, logo após esse evento, foi abandonada pelo marido Tony, que era também quem compunha suas músicas, além de ser empresário, depois desse abandono, Liliane não consegue sustentar sua carreira e desiste de ser cantora.
Para surpresa de Liliane, Jean, que é filho de um grande fã seu, a reconhece. Seu pai a idolatra, chegando a provocar ciúmes em sua mãe.
Claro que Liliane tenta negar que era a cantora, mas, acaba tendo que admitir para Jean que um dia foi Laura, a cantora que tanto se pai admira e nunca esqueceu.
Liliane e Jean se apaixonam e esse amor vai fazer com que ambos revejam seus presentes e seus futuros. É muito bonito ver o desabrochar de Liliane, a partir desse amor que causará novamente seu desejo, desejo de viver, de amar e de cantar para agradar seu novo amor. Sim, Liliane voltará a cantar a pedido de Jean que será seu empresário. Por outro lado, Jean um rapaz controlado pela mãe, encontra em Liliane uma outra “mãe” que pode permitir que ele seja um homem.
O filme como eu disse, tem um roteiro simples, mas é muito interessante ver Isabelle, que geralmente representa mulheres fortes, encenando uma mulher frágil, passiva e dependente do amor do outro. A questão também do amor feminino também é bem oportuna, afinal, Liliane apesar de ter talento, não tem desejo suficiente para sustentar seu lugar como cantora, é uma mulher que depende do investimento amoroso do outro, sem isso, definha. Liliane representa muitas mulheres que não conseguem sustentar seu desejo sozinhas. Jean da mesma forma, precisa que um objeto de amor, o tire da barra da saia da mãe e o faça amar outra mulher que não seja a mãe e desejar algo novo. Me chamou muita atenção, a admiração do pai de Jean por Liliane que lhe foi transmitida. Os significantes foram transmitidos ao longo de sua vida. Poderíamos até inferir que seu inconsciente o levou à fábrica de tortas, onde encontraria a ídolo do pai. De qualquer forma, Jean atua o desejo do pai.
Ao ver a paixão de Liliane por Jean, me lembrei de Freud quando fala que o estado do apaixonado é semelhante ao estado do maníaco. Liliane é mulher contida, mas esse amor a tira de sua melancolia e solidão, a fazendo sonhar novamente com algo que possa a fazer se sentir viva.
Sem dúvida, o amor não é a solução para todas as misérias dos sujeitos, mas, em alguns casos, pode amenizar suas mazelas, causar o desejo de viver, de retomar projetos e sonhos. Amar e se sentir amado pode ser uma experiência realmente curativa e muito compensadora, além de, nunca ser tarde para isso, é o que vemos nesse filme simples e belo. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O apartamento, mais um filme genial de Asghar Fahadi







O que tem em comum os filmes: Procurando Ely (2009), Urso de Prata Berlim; Oscar de melhor filme estrangeiro (2012), o 1o para um filme iraniano; O passado (2013) e o mais recente, O apartamento (2015) Cannes melhor ator e melhor roteiro? Todos foram dirigidos pelo diretor Asghar Farhadi. Asghar tem um tom peculiar de criar roteiros e dirigi-los, de forma a nos provocar um misto de angústia, ansiedade e por fim reflexões. Ele nos leva a percorrer os universos enigmáticos de seus personagens, e participar com eles, seus momentos de dúvidas, ambivalência e julgamentos morais.
Os filmes de Asghar sempre abordam conflitos humanos, por isso são tão reais e também nos provocam tantas sensações e sentimentos, afinal, sabemos que nós humanos, frequentemente, somos vítimas dessas desavenças com o outro. Quando assisti Procurando Ely, seu primeiro filme, fiquei profundamente tocada com o ritmo da trama e como o diretor, conseguia nos apreender de forma tão contundente e avassaladora, isso mesmo, os filmes são avassaladores, a medida em que vamos assistindo, somos tomados pelo pensamento: “Aonde isso vai dar’? E, longe de vislumbrarmos uma solução, mais confusos e angustiados ficamos. Isso me remete as situações que vivemos em nossas vidas ou as que escutamos em nossas clínicas, as relações são verdadeiros “quebra-cabeças”, que na maioria das vezes, as peças não se encaixam. Essa “fórmula” de transmitir na tela, conflitos tão humanos, reais e perturbadores, se repete em todos os filmes de Asghar, por isso também, os tornam tão especiais e geniais, principalmente, para os cinéfilos que gostam de um bom filme de arte, regado com um bom roteiro e uma ótima direção.
O apartamento, não poderia fugir a tal “fórmula”, um desmoronamento em um apartamento, leva Emad e Rana a abandonarem sua casa e se mudarem para um outro apartamento que um colega da companhia de teatro em que o casal atua, aluga para eles.
Logo no início, já começa o primeiro conflito, a antiga moradora, deixa um dos quartos trancados com seus pertences, impedido que os novos locatários possam utilizar esse cômodo. No entanto, esse seria o mais simples dos problemas, comparado do que estaria por vir.
Aos poucos, vamos conhecendo também um pouco da vida da ex-moradora do apartamento, através dos vizinhos, e pelo que eles descrevem, ela era uma garota de programa. Interessante que, em nenhum momento isso é falado claramente, se utiliza do eufemismo como promíscua para nomear a conduta moral dessa moradora. Fiquei até pensando depois, se esses termos ou prostituta são permitidos serem ditos por eles. Aparentemente, essa conduta moral da ex-moradora não afetaria a vida dos atuais moradores Emad e Rana, se não fosse um grave incidente que afetará profundamente a harmonia do casal. A partir disso, vemos um “desmoronamento”, físico e emocional entre os dois.
Emad, um professor culto, ator de teatro e com ideias progressistas, parodoxalmente, se mostra devido a esse incidente, um homem machista, rancoroso e vingativo. Emad não consegue conversar com sua esposa, sobre seus sentimentos, sua angústia ou sua vergonha. Nada disso é simbolizado e sim atuado. Rana por sua vez, também fala pouco sobre o que sente, a não ser, que sente medo. Esse silêncio mortífero dá margem a muitas fantasias e o sentimento de honra de Emad, se torna a coisa mais importante para ele. Asghar toca em algo profundamente narcísico para um homem, certamente, vários expectadores homens se identificarão com Emad. Outro ponto em que ele toca muito bem, é na hipocrisia da sociedade iraniana, como que em uma sociedade tão religiosa e repressora, existem garotas de programa e clientes? E muitos destes clientes como em qualquer lugar do mundo, são casados, tem esposas e família. Por debaixo de tanta moralidade, vamos conhecendo uma grande imoralidade.
Asghar, tem esse dom, ou seja, o de fazer com que seus personagens sejam humanos e reais, que mostrem suas sombras, que mentem, que sentem ódio, mágoa e ressentimento.
Seus personagens são o paradigma de neuróticos que, quando confrontados com os dilemas e conflitos da vida, deixam aflorar seus sintomas e demostram como é difícil poder olhar de frente para as perdas, as dores e as decepções. Então, vemos a sombra emergir através do sintoma de cada um. Emad, não poderia ser diferente, apesar de aparentar ser um homem que pensa além da cultura que vive, repressora e que censura seus textos e livros, no momento em que algo arranha um de sues valores vitais, o de macho, todo esse verniz cultural cai por terra. Emad não vira um “troglodita” é claro, mas, sua agressividade vaza, nas palavras, nos olhos e por fim nas mãos.  A fenda entre Emad e Rana é grande e só nos momentos finais do filme, vamos ver realmente, que um incidente provocado pelo outro, pode abrir uma distância quase intransponível entre os dois.
Os filmes desse diretor e roteirista brilhante, nos leva a repensar, como as palavras, os sentimentos e por fim, os atos, podem trilhar toda a diferença nas relações. O não dito, o não simbolizado, as identificações imaginárias, a falta de representações que possam nomear tantas emoções e fantasias mortíferas, podem levar a situações limites, como, as que vivenciamos em seus filmes.
Para finalizar, parafraseio Jacques-Alain Miller:
   "O amor é um labirinto de mal-entendidos onde a saída não existe."