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domingo, 14 de dezembro de 2014

EU, MAMÃE E OS MENINOS : Dizer-se homem ou mulher, eis a questão

Marisa De Costa Martinez

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Eu, mamãe e os meninos (Les Garçons et Guillaume, à table!) é um filme autobiográfico, premiado na França. O ator interpreta ele mesmo e sua própria mãe. Dado bem interessante, pois tem tudo a ver com a história do filme, o qual apresenta a questão da escolha sexual e do dizer-se homem ou mulher. Em que medida os sujeitos fazem suas escolhas ou são determinados pelo desejo do Outro? 
O título original do filme é o grito da mãe: “Os meninos e Guillaume para a mesa!”, deixando claro logo de saída a forma como sua mãe lhe tratava, diferentemente de seus dois irmãos mais velhos – os meninos. Apesar do grito aparecer em apenas uma cena do filme, ele faz jus ao título por representar precisamente sua essência, qual seja, o desejo materno. Com a psicanálise, podemos pensar o quanto somos condenados pelo discurso dos pais. Será? Talvez possamos dizer com o filme que somos não-todos efeitos do desejo do Outro parental.
A teoria lacaniana apresenta que há alteridade na constituição do sujeito. A essência do ser humano é justamente constituir-se pelo Outro, no inconsciente. De que maneira o Outro influenciaria quando um sujeito diz-se homem ou mulher? O enredo do filme é justamente sobre o impasse do sujeito diante do desejo de sua mãe. Ela, mãe de três filhos, desejava ter uma filha menina. Isso fica claro não só a partir do título do filme, mas também pelo diálogo inicial entre mãe e filho, em que Guillaume diz: “Mamãe, dei de cara com meu primeiro amor hoje! Lembra da Ana?”, sua mãe responde: “Como ele está?”. Não precisamos dizer o quanto esses lapsos representam um desejo inconsciente. Guillaume chega a dizer que o único que não queria que ele agisse como menina era o seu pai, e conta: “Mamãe só compra roupas de menino para mim para que papai não fique bravo”. Esse não o queria alienado ao desejo da mãe. O filme então se segue com inúmeras tentativas frustradas do autor responder desse lugar em que é colocado. Inclusive uma pessoa cai no erro de dizer-lhe que deveria experimentar relacionar-se com homens a fim responder sua questão sobre ser homem ou mulher, já que ele – adulto – nunca tinha se relacionado com ninguém.
No decorrer do filme não fica claro se Guillaume considerava-se menino ou menina, evidenciando assim o seu conflito. Embora possua trejeitos deveras afeminados: anda, fala, gesticula como sua mãe ao passo que repudia os esportes viris que tanto atraem seu pai e irmãos. A dúvida nos leva a pensar em uma estrutura neurótica, já que ele demanda o tempo todo ao Outro as seguintes questões: “O que quer de mim?”, “Quem sou eu?”. Exemplo disso é a cena em que uma moça espanhola nega-se a dançar com ele a sevilhana, pois a dança seria para dançar com homens e não entre duas mulheres. Imediatamente Guillaume questiona-lhe se ele parece com uma mulher ao que ela responde positivamente. Ele, então, conclui que sua mãe adorará saber disso! O protagonista tem sua voz confundida com a de sua mãe inúmeras vezes: por sua avó materna, pela cozinheira e por seu pai. Guillaume, em uma fixação, não só imitava os trejeitos de sua mãe, como a idealizava na mesma proporção, dizendo: “você é sempre linda! (...) Minha mãe é maravilhosa (...) Confesso que ela não tem nenhum defeito!” É como se ele nos dissesse que é preciso que um homem se afaste de sua mãe para se aproximar de uma mulher. Nesse sentido, entendemos que “Primeiramente, para tornar-se homem, o menino deve separar-se, em maior ou menor medida, da fixação ao objeto materno. Tanto é assim que tal fixação será diretamente proporcional ao obstáculo que encontrará no momento de se relacionar com as mulheres”. (MONSENY, 2004, p. 90). Nas palavras de Lacan: “Que uma mulher, aqui, só sirva ao homem para que ele deixe de amar uma outra” (1972/2003, p. 469), neste caso, a mãe.
Em outra passagem do filme fica nítida tamanha alienação ao desejo materno, quando em sua pergunta sobre o que o Outro materno quer dele, depara-se com a irritação de sua mãe. Não entende como ela não está feliz se ele é uma menina como ela, mas, sobretudo, como ela desejava. Pensa então que deve ser porque ele se parece demais com ela. Assim, para deixá-la feliz, passa a observar todas as mulheres com suas singularidades e admirá-las por isso – uma a uma – quando se dá conta que A Mulher não existe. Desta forma, Guillaume começa a abandonar sua posição de falo para sua mãe, e além disso, passa a gostar das mulheres. Cito novamente Monseny: “para que um homem goste de uma mulher é preciso gostar antes das mulheres” (2004, p. 96).
Em alguns momentos Guillaume parece ser convencido de que é uma menina. Ao chegar de férias, em casa, chora na presença da mãe pois estava apaixonado por um rapaz que gostava de uma garota. Com dificuldade, sua mãe lhe diz que há de existir outros homossexuais, meninos que gostam de meninos e são felizes. Por uma questão lógica, ele conclui surpreso que para ser homossexual era preciso inicialmente ser homem, enfrentar o medo que tinha de cavalos e servir ao exército. Nesta cena, ineditamente, sua mãe o nomeia como menino. Assim, o desejo da mãe de ter uma filha, por fim, desencadearia que seu filho caçula fosse visto como homossexual também por todos – terapeuta, colegas de escola e irmãos.
O impasse da sexualidade fora relacionado, tanto por Freud quanto por Lacan, à histeria. Nosso interesse aqui não é realizar um diagnóstico estrutural de Guillaume, até porque não se trata de um caso clínico. Nossa intenção é discorrer sobre algumas contribuições teóricas importantes para a análise do filme. Freud em “Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade” lembra de uma paciente histérica, a qual de um lado tentava cobrir-se segurando seu vestido como mulher, enquanto por outro lado tentava arrancá-lo como homem. Freud diz que existe uma disposição bissexual que é humana. Exemplo disso é o que ocorre na masturbação, quando em uma mesma fantasia estão presentes sentimentos tanto do homem quanto da mulher. O autor conclui: “No tratamento psicanalítico é extremamente importante estar preparado para encontrar sintomas com significado bissexual” (1908/2006, p. 154). Nesse mesmo sentido, Freud adverte em outro texto que a atividade auto-erótica das zonas erógenas são idênticas em ambos os sexos e retoma a temática da bissexualidade afirmando: “Desde que me familiarizei com a noção de bissexualidade, passei a considerá-la como o fator decisivo e penso que, sem levá-la em conta, dificilmente se poderá chegar a uma compreensão das manifestações sexuais efetivamente no homem e na mulher”. (1905)
Lacan, por sua vez, afirma que não haveria nada no psiquismo “pelo que o sujeito se pudesse situar com ser de macho ou ser de fêmea” (1964/1988, p. 194). Deste feito, cada sujeito deverá constituir-se e construir a partir de sua cadeia de significantes sobre sua escolha sexual e seu modo de gozar.
Além disso, o filme coloca a questão do que é a verdade para a psicanálise. O fato do filme ser um relato autobiográfico, isto é, baseado em fatos reais, não implica em ser um documentário. Fato esse que o deixa ainda mais interessante: o filme tal qual a realidade psíquica engendram uma verdade ficcional.
Faz-se necessário ainda apresentar o final do filme: Guillaume telefona a uma amiga para ir à casa dela. A mesma diz que receberá somente suas amigas mulheres para um jantar. Com essa resposta, sua amiga já o coloca no grupo dos homens. Apesar disso, ou justamente por isso, ele insiste e vai ao jantar. Naquela noite, surpreendentemente, ele tem um bom encontro com o amor de sua vida, segundo ele “a mulher mais linda do mundo”, curiosamente na mesma noite em que sua amiga inverte a mensagem de sua mãe, chamando-os para jantar: “Meninas e Guillaume para a mesa!”. Quinet lembra-nos que posição sexuada e escolha de objeto são de âmbito totalmente distinto (2013, p. 133). Estar na posição feminina ou masculina é uma coisa, ter um homem ou mulher como objeto sexual é outra”. A posição sexuada nos diz de um elemento todo fálico ou um elemento não-todo fálico. Deste modo, Guillaume pode ter uma posição não toda-fálica e mesmo assim ter uma mulher como objeto de escolha amorosa. Não são esses descompassos que vemos na clínica o tempo todo?
Alguns críticos colocam o final do filme como uma heteronormatividade forçada. Com Lacan, prefiro pensar paradoxalmente que uma escolha mesmo que forçada é sempre uma escolha. Assim sendo, podemos escolher por algo diferente do que o Outro espera. Em psicanálise, não pensamos pela lógica de causa e efeito, mas sim em sujeitos responsáveis por sua sexualidade, seja ela homo ou heterossexual, que podem escolher por responder tal e qual desejam dele, ou não. Escolher de forma oposta ao desejo de seus pais, seria continuar preso a ele? O outro lado da mesma moeda? Mais do mesmo? A esse respeito, Lacan nos lembra no seminário 11: “as vias do que se deve fazer como homem ou como mulher são inteiramente abandonadas ao drama, ao roteiro, que se coloca no campo do Outro. [...] o que se deve fazer como homem ou como mulher, o ser humano tem sempre que aprender, peça por peça, do Outro. [...] A sexualidade se instaura no campo do sujeito por uma via que é a da falta” (p. 194). No entanto, como ser homem ou mulher é um enigma que não pode ser respondido pelo Outro. Assim, somos levados a permanecer com nossa hipótese de que a escolha é cada sujeito. Até porque não há ninguém com uma “sexualidade bem resolvida”. Por isso que o Outro não responde ao sujeito. Sequer ele tem a resposta. Nesse sentido, seja o sujeito, seja o Outro, homem ou mulher, somos sempre seres faltantes. Não é esse o legado de Freud com sua teoria da castração?
Deste modo, a falta de resposta do que é ser homem ou mulher aponta para o mal-entendido do discurso. Daí a escolha do tema dizer-se em detrimento do ser homem ou mulher. Colocar a escolha do sexo como inerente ao dizer é aproximá-la de sua estrutura de linguagem e portanto afastá-la da ordem de um naturalismo biológico. É justamente por ser de ordem simbólica que a sexualidade dá margem à dúvida. Assim, a psicanálise “enquanto experiência e enquanto ética do bem-dizer, parte do princípio de que o sujeito tem algo a dizer que ninguém mais poderia dizer em seu lugar” (JORGE, 2013, p. 26). Assistindo ao filme pudemos escutar o desejo de Guillaume, que foi para além do desejo de sua mãe. Guillaume ensina-nos que é possível não se render ao imperativo desejo do Outro. Porém, sua mãe não fica muito feliz com isso. E questiona-o ao saber de sua escolha: “100% hetero?”. Diferentemente, em psicanálise sabemos existe uma disposição bissexual humana (1908/2006). Portanto, a propaganda do desodorante com partículas de cabra macho nos enganou: o homem homem, não existe!(1908/2006).  Portanto, a propaganda do desodorante com partículas de cabra macho nos enganou: o homem homem, não existe!
O fato de haver uma escolha subjetiva sexual tira o sujeito de seu lugar de vítima do desejo de seus pais. Essa é a ética da psicanálise, a qual “lida com o sujeito responsável. A primeira retificação subjetiva, portanto, a ser feita para com todo sujeito hétero ou homossexual é implicá-lo em sua forma de gozo e fazê-lo responsável por sua sexualidade” (QUINET, 2013, P. 131).
Lacan, em Instancia da Letra, ao inverter o algoritmo saussuriano, faz uso não apenas da famosa árvore, mas também de duas portas com letreiro: homem e mulher. Deste modo o autor discorre sobre a soberania do significante em detrimento do significado. Em última instância, homem e mulher são apenas significantes que nos servem para clarear em que porta de banheiro devemos entrar. Deste modo, só podemos concluir fazendo uso de nosso título do trabalho que é uma questão de dizer-se em não de ser homem ou mulher. Assim, nós, psicanalistas, só podemos é escutar cada sujeito com sua história, sua sexualidade e seu gozo, um a um. Diferentemente do que se parecia, Guillaume passava pelo tortuoso caminho de “como chegam os homens a interessar-se pelo Outro sexo”, não de forma direta, mas sim, através de um semblante. (MONSENY, 2004)
Para finalizar, com Lacan:

“Não há a mínima realidade pré-discursiva, pela simples razão de que o que faz coletividade, e que chamei de os homens, as mulheres e as crianças, isto não quer dizer nada como realidade pré-discursiva. Os homens, as mulheres e as crianças não são mais do que significantes” (LACAN,1972-1973/2008, p. 38).

Marisa De Costa Martinez é Psicanalista, membro do Fórum do Campo Lacaniano do Mato Grosso do Sul e do Ágora Instituto Lacaniano - MS. Mestre em Psicologia pela UFMS.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Momy, desconcertante e intenso, como é o real



De Francisco Russo

Antes de tudo, um alerta: Mommy é uma ficção científica. Mas não espere discos voadores, seres do espaço ou algo do tipo. O futuro do longa-metragem – que está logo ali, em 2015 – é tão pé no chão que, em certos momentos, o espectador até esquece que se trata de uma versão alternativa do mundo em que vivemos. Na verdade, há apenas uma – importantíssima – peculiaridade: trata-se de um Canadá ficcional, onde a lei permite que os pais, em caso de problemas com os filhos, possam interná-los em hospitais públicos com a maior facilidade. Apenas isto.

Mommy - FotoAviso dado, é hora de embarcar na melhor viagem oferecida pelo multitarefa Xavier Dolan, o jovem de apenas 25 anos que dirige, roteiriza, produz, edita e, ufa!, cuida do figurino. Dolan sempre foi assim, gosta de acumular diferentes funções nos filmes que realiza – de vez em quando ele ainda atua. Entretanto, por mais que tenha obtido elogios em trabalhos anteriores, como Amores Imaginários e Eu Matei Minha Mãe, é em Mommy que ele atinge a maturidade como diretor. Especialmente no domínio conceitual sobre como contar uma história.

Há uma peculiaridade no filme que faz toda a diferença: o formato de tela. Dolan explora principalmente o formato 1:1, bem quadradão mesmo, apelidado de “formato instagram”. Tal escolha faz com que o público tenha sempre a sensação de aperto, de que falta espaço naquele trecho onde tudo acontece, ainda mais com o vazio existente nas laterais. Com o tempo, tudo se acerta e o espectador se acostuma. Só que há um motivo especial para tal escolha: o formato da tela muda, no decorrer da história. E o primeiro instante em que isto ocorre, ao som de “Wonderwall” do Oasis, é pura magia cinematográfica, daquelas de arrepiar. Apenas ali, quando o filme já caminha para sua metade final, é que se pode compreender o porquê de tal escolha e o quão brilhante e original ela é.

Mommy - FotoEntretanto, Mommy é mais do que um mero truque estético envolvendo técnicas cinematográficas. Há nele uma trama profunda, envolvendo o difícil relacionamento entre uma mãe solteira (Anne Dorval, excelente) e seu filho problemático (Antoine-Olivier Pilon, ótimo!), hiperativo e desbocado. A relação entre eles apenas começa a melhorar quando entra em cena uma nova vizinha (Suzanne Clément, muito bem), que traz um certo “equilíbrio” ao trio. Entre aspas porque nada que acontece entre eles pode ser considerado habitual, pelo impacto e, às vezes, violência envolvida.

Mommy é um daqueles raros casos que, ao término da sessão, deixa um sorriso de satisfação e, por que não?, encantamento. Pela ousadia ao implementar uma proposta tão ambiciosa, e executá-la tão bem, e também pelo excelente trabalho apresentado pelo elenco. Um filme impactante, com um baita soco no estômago que incomoda, mas, ao mesmo tempo, fascina pela beleza com que é construído. Excelente filme, um dos melhores do ano

terça-feira, 1 de julho de 2014

Muito interessante esse vídeo- Falsidade nas redes sociais


Em um capítulo da minha dissertação, falo sobre o narcisismo e a sociedade do espetáculo na comtemporaneidade, 

http://videos.blog.br/falsidade-das-redes-sociais/

O time é de guerreiros. Mas quem é o inimigo?

Não foi porque o Paulinho saiu. Nem porque o Fernandinho entrou. Ou porque o Felipão mexeu mal. Porque Jô e Fred não acertaram o pé. Porque o Neymar foi anulado. Porque o meio-campo evaporou. Ou porque faltou raça, vontade, aplicação. Os motivos que levaram a seleção brasileira a entrar em pânico na partida contra o Chile, no sábado 28, passaram longe das explicações mágicas para referendar ou desmontar análises táticas ao fim do duelo. O pânico, que travou pernas e mentes, tomou a proporção que tomou durante 120 minutos do jogo porque todo mundo, da comissão técnica aos torcedores, pareceu se esquecer de que aquela era uma partida de futebol, e não uma guerra. Uma guerra construída desde a preleção, com a evocação da honra, da nação, do orgulho, do amor, da justiça divina e das lágrimas. O arsenal levou a equipe a entrar em campo com o peso de um país rendido pelo inimigo.

Mas quem era o inimigo?

A depender das reações ao fim da partida, eram todos: o rival que entrou na maldade, o juiz que errou no gol do Hulk, a desconfiança de quem apostou no fiasco, a imprensa que martelou todos os erros de uma equipe que não pode, não deve nem ouse pensar em perder o Mundial da redenção, o único capaz de expurgar nossas chagas expostas desde a Copa de 50.

A construção do inimigo incorporou nas quatro linhas de campo mais que uma linguagem: incorporou na equipe o espírito de uma sociedade violenta em sua base. “Vencer”, afinal, é imperativo aos filhos chamados pelos pais de “campões” antes mesmo de sair da fralda. A eles é dito o tempo todo: sejam homens, sejam dignos, passem no vestibular, atropelem os concorrentes, subam no emprego, queimem os rivais, aliem-se aos poderosos, mantenham a guarda, protejam os seus, espalhem alarmes e cercas elétricas, tenham cuidado com o vizinho, com o prefeito, com o padre, com todo mundo que tentar tomar seu dinheiro, sua honra, seu passado, e condenem à morte, pelas leis ou pela pistolagem, todos os que morderem seus calcanhares, a começar pelos vagabundos que vagam pelas ruas.

Assim vivemos em estado permanente de guerra, declarada ou não, que pode ser vencida ou não, mas que não permite o sabor de uma trégua. E morremos um pouco a cada dia, sufocados, pressionados, equilibrando pratos, somatizando chutes na boca e lambendo botas para não chegar em casa com a vergonha de dizer: “fracassei”.

Esse espírito do funcionário-padrão que se acredita guerreiro vitorioso está espalhado por todos os setores da equipe de Luiz Felipe Scolari. Dá para ver no olho dos jogadores perfilados para cantar o hino à capela: as lágrimas, anteriores à partida, parecem o transbordamento não de uma alegria, mas de um ódio contra tudo e contra todos que mal cabe no corpo.

Ódio de quê?

Da projeção de uma ideia de que a seleção não é a manifestação, mas a própria identidade de nação. Antes e depois dos jogos, a confirmação de que o nacionalismo é de fato o último reduto dos idiotas parece claro quando nós (este escriba, inclusive) reproduzimos um discurso segundo o qual “aqui é Brasil, somos os donos dessa Copa e ninguém vai vir aqui pisar em cima da nossa bandeira sem passar em cima dos nossos cadáveres”.

Por isso vemos jogadores como David Luiz, ótimo zagueiro da seleção, correr para a torcida com os olhos cheios de lágrimas e o antebraço quase esfolado de tanto bater com a palma da mão para mostrar que ali corria sangue. Porque nada menos do que a salvaguarda dessa ideia esperamos dos guerreiros, digo, jogadores da seleção.

Sobrou para os chilenos, adversários dignos e vizinhos respeitáveis que durante 120 minutos foram nomeados inimigos maior da pátria e sofreram a descortesia de ouvir as vaias dos anfitriões durante a execução de seu hino. Naquele momento estava claro que o Brasil havia levado a sério demais a ideia de que nós (nós: eu, você, a seleção, o vizinho, o dono da padaria e até o dono do jornal que você detesta) somos um time de guerreiros, que não desiste nunca, que não se dobra jamais e blábláblá. Por isso foi insuportável assistir à partida. Porque vimos em campo soldados, e não jogadores de futebol, os artistas capazes de arrancar a graça em um jogo calculado por meio do drible, do improviso, da surpresa, da leveza e da amplitude. É quando o futebol deixa de ser uma concessão pra sorrir para se tornar uma batalha, triste como a mais ordinária das rotinas, em que só vence quem mata mais e morre menos.

Ao fim do jogo, ainda confuso entre alívio, alegria e certa tristeza, assisti à exaustão a entrevista do goleiro Júlio César, heroi da partida com dois pênaltis defendidos. Fosse uma guerra, seria laureado com medalhas de honra, palmas e aplausos, sem perceber que na próxima sexta-feira será empurrado novamente para o front, de novo na linha de frente, e que condecoração alguma o salvará da saraivada de tiros em caso de fracasso. Por isso, ao ouvi-lo falar de orgulho, honra e reconquista, senti apenas pena. Pena pelos quatro anos em que viveu como um apátrida por ter falhado nos gols contra a Holanda, na já distante Copa de 2010. Aquelas lágrimas não pareciam ser de alegria, como afirmou, mas de um ódio por tudo o que ouviu e pensou em ouvir em caso de novo fracasso: de todos os que colocariam às suas costas o projeto do que poderíamos ter sido e não fomos. Senti pena como sinto pena dos soldados, condecorados ou não, vitoriosos ou não, que colocam a valentia em teste e perdem sua vida por uma causa: a honra, o orgulho, a bandeira, a glória, a nação. É em nome desses termos, tão abstratos como o vento, que os homens vão à luta não para espalhar a liberdade, como prometeram a eles, mas para morrer.

Assim começam e terminam todas as guerras, concluí ao fim da entrevista do goleiro. Nenhum general motiva o soldado a morrer falando em barbárie, em terror, em destruição. Convence o sujeito a morrer falando sobre valores: a maldita honra, o maldito orgulho, a maldita bandeira, a maldita glória e a maldita nação (e a maldita evocação a Deus, claro, pai de todos sem distinção mas que escolhe quem mata e quem morre conforme a amplitude da reza).

Se em uma guerra não há vencedores, o Brasil não venceu a partida contra o Chile nem contra Camarões nem contra a Croácia e nem contra o México na Copa das Confederações, quando descobrimos um novo grito de guerra ao cantar o hino à capela. Perdemos todos. Perdemos no instante em que transformamos a partida em uma questão de honra e absorvemos no campo a linguagem de uma sociedade já suficientemente violenta e injusta e, em vez de alegrias e amplitudes, falamos em honra, orgulho, bandeira, glória e nação. Em nome de tudo isso matamos Júlio César por mais de quatro anos, e só agora damos a ele o direito de falar com a cabeça erguida diante da câmera – um direito negado a Barbosa, que não teve outra chance em 54.

Ao fim da entrevista, pensei em telefonar ao goleiro da seleção brasileira, de quem não tenho o telefone, e dizer: meu amigo, só Deus (e meus pacientes vizinhos) sabe o quanto vibrei ao ver suas muitas defesas contra o Chile. Mas de minha parte pode ficar tranquilo: você não me devia nada. Você, ao que tudo leva a crer, é um grande sujeito, com ou sem milagres redentores em campo, e não merece ser sacrificado em meu nome nem em nome de ninguém (as falhas em 2010 nem foram tão falhas assim). Essa guerra da Copa, como todas as guerras, é só uma velha ficção: por ela inventa-se um inimigo para unir uma nação em nome de muito pouco ou quase nada. Ficaremos felizes e guardaremos para sempre a lembranças da Copa se tudo der certo. Mas ainda assim será só futebol, e só terá graça se for só futebol. Quando vira guerra vira outra coisa. Vira trauma, vira pânico, vira tristeza. Mesmo quando levamos a taça, somos apenas a expressão daquela gente honesta, boa e comovida da música de Belchior. Aquela gente que caminha para a morte pensando em vencer no campo e na vida.

Crônica / Matheus Pichonelli


domingo, 29 de junho de 2014

Lição da Copa

Em La Voie (O Caminho) o sociólogo Edgar Morin apontou um dos grandes paradoxos de nosso tempo. “A globalização”, diz ele, “é ao mesmo tempo o melhor e o pior.” Por melhor, entende-se a possibilidade de emergência de um novo mundo. Por pior, a possibilidade de autodestruição da humanidade. Em meio à incerteza do porvir, escreve o mestre francês, um fato é concreto: somos cada vez mais interdependentes e pertencemos a uma “comunidade de destino”. Morin não foi o primeiro a observar a formação dessas comunidades, mas um dos primeiros a diagnosticar sua reemergência no mundo de hoje. O termo designa uma espécie de cimento social que une indivíduos com vidas díspares em torno de um objetivo comum.
São essas “comunidades de destino”, segundo outro sociólogo, o alemão Albrecht Sonntag, que fazem o sucesso da Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Para o especialista em sociologia do esporte, professor da Escola de Administração (Essca) de Angers e Paris e coordenador do projeto Football Research in an Enlarged Europe (Free), nós, torcedores, sofremos de certa esquizofrenia: somos pós-modernos, consumidores globalizados, hedonistas, mas também pré-modernos, arcaicos, sentimos a necessidade de estar juntos e compartilhar um mesmo objetivo.

Nesse sentido, a Copa tornou-se ao longo dos anos um símbolo de união capaz de superar as diferenças de classes sociais, de éticas ou religiões. “Grandes nações, para existirem, têm necessidade de se confortar sobre si mesmas de tempos em tempos por pulsões emocionais fortes”, diz Sonntag. “Temos a necessidade de dizer a nós mesmos que somos uma comunidade, que tem problemas, mas também vínculos. Chamo isso de metáfora da família.” Embora não considere a melhor de todos os tempos, Sonntag fala com paixão da Copa no Brasil. E, otimista, adverte: a grande imagem positiva que ficará para o mundo não é apenas a de um país que sabe apreciar o futebol, mas a de uma sociedade madura e democrática que, ao mesmo tempo, sabe se rebelar e pedir a seus governantes mais justiça social, mais igualdade e menos corrupção.

Por que o sr. diz que nós brasileiros podemos adorar a Copa sem receios?
Antes de mais nada porque é um espetáculo fascinante, bem organizado, que nos envia diretamente à infância - um formidável parêntese na vida cotidiana. A Copa tem sua dinâmica própria, seu poder emocional que domina o resto da atualidade - política, social - durante um mês. É claro que o Brasil é uma democracia imperfeita, como todas as outras, que a população brasileira e sua classe média têm boas razões para se revoltar contra certas práticas governamentais e econômicas, mas é necessário que nos concedamos uma pequena pausa para observar como o futebol consegue eclipsar o resto quando a competição começa. É notável.

Mas, depois de tanta efervescência social, essa entrega do Brasil à Copa não é ruim?
Essa é a razão pela qual eu pesquiso sobre o futebol há 15 anos. Esse jogo é especial - e, em alguns países, mais especial do que em outros. Vimos o mesmo na Alemanha em 2006, uma nação que vive em osmose em relação ao futebol e deve muito a ele no que diz respeito a sua coesão social. Trata-se de uma democracia que funciona melhor que a do Brasil - não é feio nem maldoso dizer isso - e também é um pouco menos corrompida. Mas a necessidade de coesão é exatamente a mesma. 

Por quê?
Porque os símbolos que reúnem os alemães foram desnaturados, desvalorizados pelo nazismo. O hino nacional foi por 50 anos uma questão delicada. A bandeira, nós não usávamos. Não havia uma relação natural com a “comunidade de destino”. A Copa de 2006 criou esse símbolo nacional de substituição. O Brasil e a Alemanha são muito comparáveis em suas necessidades de se encontrar em torno do futebol. Se você observar a França, vai ver o mesmo. É uma democracia que funciona, um ótimo país para se viver. Mas há tendências de fragmentação do corpo social. Facilmente identificamos uma grande sede de “estar junto” por um lapso de tempo. A Copa do Mundo exerce esse papel.

E como entender a febre da Copa que os EUA parecem ter contraído também? 
Os EUA, outra democracia que funciona bem, têm o mesmo problema que a Alemanha, a França ou o Brasil: são um monstro de 300 milhões de habitantes, fragmentado, com antagonismos incríveis. Sempre necessitaram ao longo de sua história de uma forte dose de nacionalismo a fim de existir. Muitos intelectuais, a começar por Tocqueville, compreenderam isso. É preciso preservar essa ideia de Estado-Nação sob a qual repousam os países. Por isso, o soccer entra cada vez mais no imaginário americano. E, neste ano, eles têm uma equipe bem simpática, com um treinador carismático, simbólico por ser um imigrante que sente pertencer ao país. Mas não sei se isso terá impacto duradouro.

A Fifa é o mal ou só um bode expiatório? 
A Fifa é um bode expiatório, sem dúvida. Pediu oito estádios, e o governo brasileiro quis 12, por exemplo. Não podemos culpá-la por isso. Logo, a Fifa é um bode expiatório, ainda que ela mereça. É a Copa do Mundo em si que reúne características que a transformam em um símbolo ideal e justificado para manifestações de ordem social. Em primeiro lugar, ela cria uma visibilidade extraordinária: todo mundo fez reportagens sobre as manifestações no Brasil, tremendamente justificadas, que ganharam uma amplitude mundial. Foi um palco de teatro extraordinário. Além disso, a Copa permite expressar melhor o que se quer dizer. É o país do futebol que está protestando contra a Copa, ora! 

Qual é o impacto real de uma Copa?
A Copa do Mundo é um luxo. Mas se diz que não há outro evento que provoque um efeito econômico e de visibilidade tão positivo para um país. Isso é falso. Às vezes é possível limitar os prejuízos, como aconteceu na Alemanha, onde os estádios acabaram sendo bem aproveitados, por exemplo. Não será o caso da Arena de Manaus. Na Rússia, em 2018, serão gastos milhões e milhões e vai ser uma piada. Mas a Rússia não é uma democracia, logo não haverá protestos. No Catar, a mesma coisa. Em geral, a Copa do Mundo é um escândalo, algo desmesurado por natureza. Ela faz desaparecer dinheiro que pode ser utilizado de outra forma. Na Alemanha tudo bem, porque o país tem dinheiro. No Brasil, convenhamos, há outras coisas a fazer em Manaus do que construir um estádio. Logo, as manifestações no Brasil são justificadas, corretas, e tiveram bom efeito, porque hoje o mundo inteiro está por dentro. Fazer coisas impróprias em um país fechado é muito mais fácil do que em uma democracia aberta, como o Brasil.

Essa rebeldia fez do Brasil um ponto de não retorno na história das Copas? 
A resposta é sim, sem dúvida. O Brasil é um ponto de não retorno em direção a mais responsabilidade, mais abertura, mais transparência. E não acabou, tenho certeza. No seio da própria Fifa, aposto que eles mordem os dedos por terem decidido muito cedo e muito rápido a realização da Copa na Rússia, em 2018, e no Catar, em 2022. 

Seu colega David Ranc, pesquisador do esporte, escreveu um artigo dizendo que a Copa no Brasil é mais organizada que os Jogos Olímpicos em Londres. É isso mesmo?
Ranc é um colega que trabalha na sociologia do esporte, viveu em Londres e viajou muito ao Brasil. Ele defende que os europeus devem mudar de atitude em relação aos países emergentes e em vias de desenvolvimento. Nós continuamos a dizer que sabemos fazer e os outros estão aprendendo. Não é verdade, quando observarmos os enormes erros orçamentários, de organização e de segurança, erros banais, cometidos na Olimpíada de Londres. Meu colega tem razão quando diz que o velho conceito orientalista que dizia que o Ocidente faz uma ideia condescendente do que é o Oriente hoje tem uma nova tradução: o Norte faz uma ideia condescendente do que o Sul é hoje. 

Qual será a imagem do País pós-Mundial?
O Brasil ganhará em imagem, pouco importa o resultado. E vai ganhar em imagem por causa das manifestações. Para o mundo, o Brasil é um país onde manifestantes, a maioria pacíficos, defendem ideias justas: justiça social, igualdade de oportunidades, fim da corrupção, etc. Ou seja: é uma democracia que chega a sua maturidade, alcançada por sua população, o que é formidável. Sabíamos que o Brasil era ótimo em fazer festa, e não precisávamos da Copa para saber disso. Hoje, constatamos que é também uma democracia que vive de um pluralismo de ideias essencial. O que falta à Rússia, por exemplo. 

Quem deve ganhar a Copa?
Vou dizer uma coisa que vai surpreendê-lo: a melhor coisa que pode acontecer ao Brasil será não vencer a Copa do Mundo.

Você diz isso porque é alemão!
Não, não é isso. O Brasil não precisa de uma sexta estrela na camisa para ser reconhecido para toda a eternidade como o país do futebol. Isso, todo mundo já entendeu. Disputamos o segundo lugar, porque o primeiro é de vocês, de verdade. O que seria interessante é que, se vocês perderem nos jogos eliminatórios, ainda sobrarão tantos outros jogos na Copa. E aí veremos se vocês amam a seleção brasileira ou se, mais ainda, vocês amam o futebol. Eu creio que vocês amam o futebol. Nesse caso, continuarão a fazer a festa, e essa mensagem jamais será esquecida. 

E quem é o favorito para a conquista?

Hum… O Brasil pode ser conduzido por uma onda de euforia, mesmo que não esteja muito convincente dentro do campo até aqui. A Argentina - ou melhor, Messi e mais 10 - podem chegar. Se a Holanda continuar nessa batida, pode ir muito longe. E a Alemanha dá a impressão de que ainda tem muita potência escondida sob o capô. Considero essa Copa genial porque tudo pode acontecer.

Essa é mesmo a Copa das Copas?
A melhor Copa do Mundo é aquela que descobrimos quando crianças. Depende da idade de quem responde. A melhor para mim foi - e é - a do México, em 1970. Descobríamos a TV em cores, tivemos uma semifinal incrível entre Alemanha e Itália. Foi um torneio com modelo compacto de três semanas e 16 equipes, coroada por Pelé como o rei. Tudo foi reunido para que o México 1970 fosse a Copa do Mundo. Mas em termos de qualidade do jogo, a Copa de 2014 é seguramente melhor do que as últimas quatro.

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Albrecht Sonntag é sociólogo da Escola Superior de Ciências Comerciais de Angers (França)

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