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quarta-feira, 18 de junho de 2014
quarta-feira, 21 de maio de 2014
segunda-feira, 12 de maio de 2014
Dica de cinema: filme - O passado
Crítica: ‘O Passado’
Asghar Farhadi chamou a atenção da crítica internacional em 2009, com seu Procurando Elly. O filme surpreendeu tanto pela diferença entre Farhadi e Kiarostami, maior expoente cinematográfico de seu país, quanto pelo choque entre o lugar retratado no longa e a imagem que o ocidente fazia dele.
Procurando Elly é um filme de mistério, envolvente, rápido, do tipo que seria facilmente comercializável se não fosse falado em farsi. Diferente do cinema contemplativo, de planos longos e tempos mortos de Kiarostami, que no mesmo ano lançava o experimental Shirin. É também uma narrativa sobre uma classe alta iraniana, intelectual, liberada, que por baixo das burcas quase não apresenta diferença em relação às plateias francesas, ou brasileiras, de sua história. E essa cisão entre a moral instaurada e os valores dos personagens é um dos motores do filme.
Dois anos depois, A Separação deu a Farhadi o Oscar de melhor filme estrangeiro e, novamente, o abismo entre o Irã dos fundamentalistas e dos seculares é o grande tema. A narrativa fluida, em que o espectador nunca tem acesso a verdade, é ideal para um filme que quer falar justamente do desencontro essencial nas estruturas de um país.
Em O Passado, o diretor repete de certa forma a estrutura de A Separação eProcurando Elly, a narrativa fragmentada em que a verdade nunca é acessível, porque se mostra diferente através do olhar de cada personagem. Entretanto, o tema já não é o mesmo, nem o lugar: o filme se passa na França, embora o protagonista seja um iraniano, e o grande assunto não é mais o desajuste entre um indivíduo e seu país, mas aquele que ocorre entre indivíduos.
A sequência inicial traz os dois protagonistas em um carro que se movimenta pela cidade, e evoca tanto Kiarostami quanto Bergman, influências visíveis no longa. Há algo de essencialmente bergmaniano no filme: um mergulho em uma teia de relações familiares impossíveis, desconexas, uma radiografia da impossibilidade do amor, da conexão, do contato. O tema e a história de Farhadi são de uma força notável, mas que ele esvazia ao fragmentar.
Ahmad retorna à França após quatro anos a pedido de sua ex-mulher, Marie Anne, que quer finalmente oficializar o divórcio. Ela vive com as duas filhas de um relacionamento ainda anterior, o novo marido e o filho dele, cuja mãe está em coma após uma tentativa de suicídio. Como um espectador carinhoso, Ahmad aproxima-se da situação e vai revelando camadas de mentiras, sofrimento e a imensa incapacidade humana de compreensão.
É indiferente que o protagonista seja um iraniano, embora o diretor tente insinuar que o rompimento teve algo a ver com a incapacidade do personagem de viver entre dois mundos. O que levou o casal a romper, e Ahmad a retornar a Teerã, não importa, porque a vida interna de Ahmad pouco importa: ele é espectador para o teatro do restante da família.
Porque ocupa esse lugar de espectador, sua essencial bondade não chega a incomodar. Se Ahmad fosse um personagem completo, do qual todas as facetas deveriam ser vistas, ele se tornaria clichê. É unidimensional porque apenas um lado seu é mostrado ao público, e a atuação de Ali Mosaffa faz muito para que esse lado oculto de fato exista dentro do personagem.
Contudo, há alguns problemas, e alguns clichês, na construção dos demais personagens. As motivações de Lucie, a filha de Marie Anne que, de certa forma, põe a trama em movimento, são estranhas e desconexas. Pode-se argumentar que uma menina de dezesseis anos dificilmente teria tanta clareza de suas ações, o que é válido, e sua confusão não chega a estragar o longa, mas incomoda.
A própria Marie Anne soa estereotipada: a mulher que muda de maridos o tempo todo, impulsiva, vingativa, buscando salvar-se nos homens. Entretanto, a boa construção dos diálogos e, principalmente, a enorme humanidade das atuações faz com que esses clichês soem familiares ao invés de óbvios, construções universais ao invés de saídas fáceis.
O Passado é um filme todo feito desses poréns: um bom filme que se equilibra em falhas. Às vezes elas não comprometem, mas em alguns momentos a sensação é que Farhadi é capaz, inclusive já realizou, algo melhor.
O maior problema ocorre quando se nota que a história ficará em aberto, que de forma idêntica aos seus filmes anteriores, o diretor instaura uma partícula de incerteza, uma dúvida eterna para o espectador e os personagens. Soa repetitivo, soa como uma fixação na forma que funcionou uma vez, mesmo que a narrativa aqui não faça esse pedido. A narrativa de O Passado de fato não pede nenhum tipo de desestabilização do espectador, ou articulações da incerteza pós-moderna. É um drama familiar, uma tragédia da condição humana, e funcionaria perfeitamente em uma estrutura mais redonda, mais bem amarrada, como A Caça, por exemplo, excelente justamente por assumir a forma do drama clássico.
Na escolha de planos, na montagem e nos diálogos, fica claro que Asghar Farhadi é um grande cineasta e O Passado, apesar de todos os erros, não deixa de ser um ótimo filme; só não é excepcional como poderia ser. Principalmente, o diretor parece ter se apaixonado por sua própria estrutura padrão, fascinado com a inovação que lhe serviu tão bem em um primeiro momento, e não parece pronto a abandoná-la quando chega a hora. Se conseguir adaptar sua preferência por formas voláteis às histórias que quer contar, ou se transitar mais confortavelmente entre a narrativa clássica e a fragmentação, poderá se firmar como um dos autores de mais fôlego atualmente.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Filme: Yves Saint-Laurent
domingo, 13 de abril de 2014
Dica de Cinema!
sábado, 12 de abril de 2014
" Nossos complexos, replicou Freud, são a fonte de nossa fraqueza; mas com freqüência são também a fonte de nossa força. "
Entre as preciosidades encontradas na biblioteca da Sociedade Sigmund Freud está essa entrevista. Foi concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926. Deve ter sido publicada na imprensa americana da época. Acreditava-se que estivesse perdida, quando o Boletim da Sigmund Freud Haus publicou uma versão condensada, em 1976. Na verdade, o texto integral havia sido publicado no volume Psychoanalysis and the Fut número especial do “Journal of Psychology”, de Nova Iorque, em 1957. É esse texto que aqui reproduzimos, provavelmente pela primeira vez em português.
Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade.
Quem fala é o professor Sigmund Freud, o grande explorador da alma. O cenário da nossa conversa foi uma casa de verão no Semmering, uma montanha nos Alpes austríacos.
Eu havia visto o pai da psicanálise pela última vez em sua casa modesta na capital austríaca. Os poucos anos entre minha última visita e a atual multiplicaram as rugas na sua fronte. Intensificaram a sua palidez de sábio. Sua face estava tensa, como se sentisse dor. Sua mente estava alerta, seu espírito firme, sua cortesia impecável como sempre, mas um ligeiro impedimento da fala me perturbou.
Parece que um tumor maligno no maxilar superior necessitou ser operado. Desde então Freud usa uma prótese, para ele uma causa de constante irritação.
S. Freud: Detesto o meu maxilar mecânico, porque a luta com o aparelho me consome tanta energia preciosa. Mas prefiro ele a maxilar nenhum. Ainda prefiro a existência à extinção.
Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intolerável do que os fardos que carregamos.
Freud se recusa a admitir que o destino lhe reserva algo especial.
- Por quê – disse calmamente – deveria eu esperar um tratamento especial? A velhice, com sua agruras chega para todos. Eu não me rebelo contra a ordem universal. Afinal, mais de setenta anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas – a companhia de minha mulher, meus filhos, o pôr do sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?
George Sylvester Viereck: O senhor teve a fama, disse que Sua obra influi na literatura de cada país. O homem olha a vida e a si mesmo com outros olhos, por causa do senhor. E recentemente, no seu septuagésimo aniversário, o mundo se uniu para homenageá-lo – com exceção da sua própria Universidade.
S. Freud: Se a Universidade de Viena me demonstrasse reconhecimento, eu ficaria embaraçado. Não há razão em aceitar a mim e a minha obra porque tenho setenta anos. Eu não atribuo importância insensata aos decimais.
A fama chega apenas quando morremos, e francamente, o que vem depois não me interessa. Não aspiro à glória póstuma. Minha modéstia não e virtude.
George Sylvester Viereck: Não significa nada o fato de que o seu nome vai viver?
S. Freud: Absolutamente nada, mesmo que ele viva, o que não e certo. Estou bem mais preocupado com o destino de meus filhos. Espero que suas vidas não venham a ser difíceis. Não posso ajudá-los muito. A guerra praticamente liquidou com minhas posses, o que havia poupado durante a vida. Mas posso me dar por satisfeito. O trabalho é minha fortuna.
Estávamos subindo e descendo uma pequena trilha no jardim da casa. Freud acariciou ternamente um arbusto que florescia.
S. Freud: Estou muito mais interessado neste botão do que no que possa me acontecer depois que estiver morto.
George Sylvester Viereck: Então o senhor é, afinal, um profundo pessimista?
S. Freud: Não, não sou. Não permito que nenhuma reflexão filosófica estrague a minha fruição das coisas simples da vida.
George Sylvester Viereck: O senhor acredita na persistência da personalidade após a morte, de alguma forma que seja?
S. Freud: Não penso nisso. Tudo o que vive perece. Por que deveria o homem construir uma exceção?
George Sylvester Viereck: Gostaria de retornar em alguma forma, de ser resgatado do pó? O senhor não tem, em outras palavras, desejo de imortalidade?
S. Freud: Sinceramente não. Se a gente reconhece os motivos egoístas por trás de conduta humana, não tem o mínimo desejo de voltar a vida, movendo-se num círculo, seria ainda a mesma.
Além disso, mesmo se o eterno retorno das coisas, para usar a expressão de Nietzsche, nos dotasse novamente do nosso invólucro carnal, para que serviria, sem memória? Não haveria elo entre passado e futuro.
Pelo que me toca estou perfeitamente satisfeito em saber que o eterno aborrecimento de viver finalmente passará. Nossa vida é necessariamente uma série de compromissos, uma luta interminável entre o ego e seu ambiente. O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece absurdo.
George Sylvester Viereck: Bernard Shaw sustenta que vivemos muito pouco, disse eu. Ele acha que o homem pode prolongar a vida se assim desejar, levando sua vontade a atuar sobre as forças da evolução. Ele crê que a humanidade pode reaver a longevidade dos patriarcas.
- É possível, respondeu Freud, que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez morramos porque desejamos morrer.
Assim como amor e ódio por uma pessoa habitam em nosso peito ao mesmo tempo, assim também toda a vida conjuga o desejo de manter-se e o desejo da própria destruição.
Do mesmo modo com um pequeno elástico esticado tende a assumir a forma original, assim também toda a matéria viva, consciente ou inconscientemente, busca readquirir a completa, a absoluta inércia da existência inorgânica. O impulso de vida e o impulso de morte habitam lado a lado dentro de nós.
A Morte é a companheira do Amor. Juntos eles regem o mundo. Isto é o que diz o meu livro: Além do Princípio do Prazer.
No começo, a psicanálise supôs que o Amor tinha toda a importância. Agora sabemos que a Morte é igualmente importante.
Biologicamente, todo ser vivo, não importa quão intensamente a vida queime dentro dele, anseia pelo Nirvana, pela cessação da “febre chamada viver”, anseia pelo seio de Abraão. O desejo pode ser encoberto por digressões. Não obstante, o objetivo derradeiro da vida é a sua própria extinção.
Isto, exclamei, é a filosofia da autodestruição. Ela justifica o auto-extermínio. Levaria logicamente ao suicídio universal imaginado por Eduard von Hartamann.
S.Freud: A humanidade não escolhe o suicídio porque a lei do seu ser desaprova a via direta para o seu fim. A vida tem que completar o seu ciclo de existência. Em todo ser normal, a pulsão de vida é forte o bastante para contrabalançar a pulsão de morte, embora no final resulte mais forte.
Podemos entreter a fantasia de que a Morte nos vem por nossa própria vontade. Seria mais possível que pudéssemos vencer a Morte, não fosse por seu aliado dentro de nós.
Neste sentido acrescentou Freud com um sorriso, pode ser justificado dizer que toda a morte é suicídio disfarçado.
Estava ficando frio no jardim.
Prosseguimos a conversa no gabinete.
Vi uma pilha de manuscritos sobre a mesa, com a caligrafia clara de Freud.
George Sylvester Viereck: Em que o senhor está trabalhando?
S. Freud: Estou escrevendo uma defesa da análise leiga, da psicanálise praticada por leigos. Os doutores querem tornar a análise ilegal para os não médicos. A História, essa velha plagiadora, repete-se após cada descoberta. Os doutores combatem cada nova verdade no começo. Depois procuram monopoliza-la.
George Sylvester Viereck: O senhor teve muito apoio dos leigos?
S. Freud: Alguns dos meus melhores discípulos são leigos.
George Sylvester Viereck: O senhor está praticando muito psicanálise?
S. Freud: Certamente. Neste momento estou trabalhando num caso muito difícil, tentando desatar os conflitos psíquicos de um interessante novo paciente.
Minha filha também é psicanalista, como você vê…
Nesse ponto apareceu Miss Anna Freud acompanhada por seu paciente, um garoto de onze anos, de feições inconfundivelmente anglo-saxonicas.
George Sylvester Viereck: O senhor já analisou a si mesmo?
S. Freud: Certamente. O psicanalista deve constantemente analisar a si mesmo. Analisando a nós mesmos, ficamos mais capacitados a analisar os outros.
O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. Os outros descarregam seus pecados sobre ele. Ele deve praticar sua arte à perfeição para desvencilhar-se do fardo jogado sobre ele.
George Sylvester Viereck: Minha impressão, observei, é de que a psicanálise desperta em todos que a praticam o espírito da caridade cristão. Nada existe na vida humana que a psicanálise não possa nos fazer compreender. “Tout comprec’est tout pardonner”.
Pelo contrário! – bravejou Freud, suas feições assumindo a severidade de um profeta hebreu. Compreender tudo não é perdoar tudo. A análise nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que podemos evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado. A tolerância com o mal não e de maneira alguma um corolário do conhecimento.
Compreendi subitamente porque Freud havia litigado com os seguidores que o haviam abandonado, por que ele não perdoa a sua dissensão do caminho reto da ortodoxia psicanalítica. Seu senso do que é direito é herança dos seus ancestrais. Una herança de que ele se orgulha como se orgulha de sua raça.
Minha língua, ele me explicou, é o alemão. Minha cultura, mina realização é alemã. Eu me considero um intelectual alemão, até perceber o crescimento do preconceito anti-semita na Alemanha e na Áustria. Desde então prefiro me considerar judeu.
Fiquei algo desapontado com esta observação.
Parecia-me que o espírito de Freud deveria habitar nas alturas, além de qualquer preconceito de raças que ele deveria ser imune a qualquer rancor pessoal. No entanto, precisamente a sua indignação, a sua honesta ira, tornava o mais atraente como ser humano.
Aquiles seria intolerável, não fosse por seu calcanhar!,
Fico contente, Herr Professor, de que também o senhor tenha seus complexos, de que também o senhor demonstre que é um mortal!
Nossos complexos, replicou Freud, são a fonte de nossa fraqueza; mas com freqüência são também a fonte de nossa força.
Fonte: http://www.freudiana.com.br/destaques-home/entrevista-com-freud.html


